A filha que o Xingu esqueceu

Decidi reativar o meu blog, mas antes de voltar a escrever quero compartilhar algumas matérias, como a história da filha de Leonardo Villas Bôas e  Mavirá Kamayurá, que viveram um intenso amor proibido, no Xingu, em 1947. A matéria foi publicada na revista Claudia, em maio de 2012. Infelizmente as revistas mensais não abrem os arquivos na web, logo só tenho o PDF das reportagem no link: MemóriasdoXingu

Maialu1

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Por que amar a Amazônia?

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“Foi chato, tedioso, apenas horas de barco em rios que não acabavam nunca e um horizonte fixo as mesmas árvores verdes e monótonas. As trilhas eram repletas de espinheiros, formigas e vespas, e pior, quase não vimos bichos. Apenas um … Continuar lendo

Como ignorar o genocídio dos xavantes?

Em 2004, eu vi muitas crianças xavantes morrerem enquanto seus pais aguardavam acampados sob lonas negras, suportando um sol de 40 graus, às margens da BR-158, próximo da divisa entre o Mato Grosso com o Tocantins. Esses índios esperavam, pacientemente, que o julgamento de um liminar permitisse que eles voltassem à sua reserva legalmente demarcada e tomada por invasores. Os índios desistiram de esperar após a morte por pneumonia e desnutrição de Jardeu, um bebê de um ano. Revoltado, um grupo de anciões xavantes invadiu uma pequena faixa da antiga reserva para fazer o funeral da criança.  O corpo de Jardeu ficou estendido na estrada enquanto os índios quebravam as cercas para entrar em Marãiwatsede. “Esse menino não morreu, ele é um guerreiro que vai entrar na terra indígena na nossa frente”, foi o recado mandado pelos anciões.

A notícia sobre as mortes de crianças indígenas percorreu as manchetes nacionais e internacionais. Mas na época as pessoas não entendiam por que os pais deixavam as suas crianças morrerem. Alguns veículos de comunicação chegaram a levantar a suspeita de que existiam até maus tratos dos índios com os filhos.

A verdade é algo simples e chocante. Os responsáveis pela morte são o Estado e a Justiça (ou a falta dela), e todas as autoridades que permitiram em 1966 que os índios fossem jogados em aviões da Força Aérea Brasileira, e retirados da terra indígena de Marãiwatsede. Tudo para que a posse da área fosse dada à empresa Liquifarm Agropecuária Suiá-Missu S/A, que posteriormente vendeu a terra para a multinacional italiana Agip Petróleo, hoje Agip Brasil, que pertence à Petrobras. Antes, a empresa havia comprado a terra da família paulistana Ometto, que por sua vez fez negócios com o antigo colonizador do Mato Grosso Ariosto da Riva, em 1962.

A Agropecuária Suiá-Missú chegou a receber dinheiro do povo brasileiro, via a extinta Sudam (Superintendência do Desenvolvimento da Amazônia), aquele órgão onde existem milhares de investigações sobre corrupção e desvio de verba pública. O mais interessante é que não se sabe como, mas, para receber dinheiro da Sudam, os donos da antiga Suiá-Missú, conseguiram da própria Funai documentos dizendo que ali não existiam índios. Apesar de terem removidos os mesmos índios  “inexistentes” em 1966.

Em 1992, tomado por uma súbita onda de piedade, em plena Conferência do Meio Ambiente Eco-92, o grupo Agip devolveu verbalmente o território para os xavantes. Mas a devolução foi apenas verbal e nunca oficializada. Depois disso, a Justiça fez com que os índios fossem proibidos de voltar às suas terras tradicionais até a pendência estar resolvida. Há cerca de dez anos, os índios decidiram seguir da terra de São Marco, para onde foram removidos pelo Estado, e ficaram acampados durante onze meses na frente do que foi Marãiwatsede, às margens da BR-158. Onde vivem até hoje, comprimidos em 20 hectares e em condições de penúria que geram a morte das crianças. A área oficial e homologada em 1998 pela justiça é de 165 mil hectares.

Terra é sempre alvo de cobiça, e não demorou muito para um grupo decidir invadir a área antes que os xavantes conseguissem reaver toda reserva. Surgiram mais de 500 pequenos posseiros, que hoje fazem um cinturão de causa social, e escondem as grandes fazendas que existem dentro de Marãiwatsede. Pessoas atraídas pelo canto da sereia de poderosos mato-grossenses que os convenceram a entrar na reserva indígena em troca de um pedacinho de terra. Porém, no processo de briga pela posse da terra, também podemos encontrar desembargadores, deputados estaduais e prefeitos, ou seja, as verdadeiras pessoas que fazem a partilha do que deveria ser mais uma terra indígena.

Marãiwatsede esta na confluência de três municípios: São Félix do Araguaia, Bom Jesus do Araguaia e Alto Boa Vista. Este último criado justamente por pessoas atraídas pela oferta de terras baratas vendidas, ou doadas, por grileiros que se apossaram da reserva indígena após a remoção dos xavantes.

Apesar de a mídia ignorar e sempre mostrar em suas reportagens apenas os pequenos posseiros, que ocupam a menor parte da área, entre os réus no processo da Justiça Federal n. 2007.36.00.012519-0, que solicitou em 2010 a retirada dos invasores da área em benefício dos índios, estão nomes de vários políticos da região, como:

– Filemon Gomes Costa Limoeiro, prefeito de São Félix do Araguaia.
– Osmar Kalil Botelho Filho, ex-prefeito de Bom Jesus do Araguaia, que morreu em 2010 de ataque cardíaco.
– Antonio Mamed Jordão, vice prefeito de Alto Boa Vista.
– Admilson Luiz de Rezende (irmão de Gilbertão Rezende, ambos presos em 2007 pela Policia Federal acusados de liderar um esquema de grilagem na região do Araguaia).
– Aldecides Milhomem de Cirqueira, prefeito (cassado pelo TRE) de Alto Boa Vista.
– Antônio Camelo Neto, vereador de Alto Boa Vista.

Um grupo responsável por um dos maiores desmatamentos feitos na Amazônia no ano de 2010. Um processo que praticamente destruiu as matas da terra indígena. Dos 165 mil hectares de floresta, 85% foram derrubados para pastagem e plantação de soja.

A terra indígena antes e depois da invasão dos grileiros

Em prol desses pobres lavradores, que usam até posseiros para justificar a tomada da área dos xavantes, o governo de Mato Grosso decidiu no início de julho retirar os índios de lá novamente, e enviá-los ao Parque Estadual do Araguaia.

A proposta de autoria do presidente da Assembleia Legislativa, José Riva (PP), e do deputado Adalto de Freitas (PMDB), autoriza o Estado a trocar a Terra Indígena Marãiwatsede pelo Parque. Uma terra protegida que tem apenas 1% de seu território legalizado. A proposta foi aprovada e sancionada pelo governador do estado, o pecuarista Silval Barbosa (PMDB).

Além de inconstitucional, a prática da remoção retira o direito de os índios existirem, o que é um crime muito maior. Algo considerado genocídio pela Lei  2.889, instituída em outubro de 1956. Ou seja, o que a Assembleia Legislativa de Mato Grosso definiu na semana passada foi autorização para o genocídio xavante. O que diz a Lei:

Define e pune o crime de genocídio.
Art. 1º Quem, com a intenção de destruir, no todo ou em parte, grupo nacional, étnico, racial ou religioso, como tal:
a) matar membros do grupo;
b) causar lesão grave à integridade física ou mental de membros do grupo;
c) submeter intencionalmente o grupo a condições de existência capazes de ocasionar-lhe a destruição física total ou parcial;
d) adotar medidas destinadas a impedir os nascimentos no seio do grupo;
e) efetuar a transferência forçada de crianças do grupo para outro grupo;

 A definição do crime de genocídio nasceu em 1948, após os nazistas terem sido condenados no julgamento de Nuremberg por crimes comuns. A indignação e a noção de que algo muito maior teria ocorrido fizeram com que as Nações Unidas definissem o termo para o extermínio de grupos étnicos, ou seja, a limpeza étnica. Algo que vemos acontecer com os índios de forma sistemática há cinco séculos.

Um relatório do extinto Serviço de Proteção ao Índio (SPI) revela também que não é a primeira vez que se muda a Lei em Mato Grosso para roubar terras e aniquilar índios.

Em 1968, o Instituto de Terras de Mato Grosso foi fechado pela ditadura militar. A razão? Outro grupo de latifundiários se uniu para vender e roubar a terra dos bororos. Dessa vez a manobra foi também autorizada pelo governo do estado, que alterou a lei para liberar a venda de áreas na reserva indígena de Tereza Cristina. Apesar de ter sido demarcada pelo marechal Cândido Rondon, isso não foi forte o suficiente para ajudar os bororos, que, com a ação do governo, foram removidos na década de 60 para uma areão improdutivo, no meio do Pantanal. Aos poucos o grupo começou a se matar, em um lento auto-aniquilamento similar ao que ocorre hoje com os índios guaranis de Mato Grosso do Sul. O chefe da SPI na época, Hélio Bucker, chegou a enviar telegramas alertando o governo federal sobre as mortes dos bororos.

Antes disso, outro massacre chocou o país. Em 1963, a mando do seringalista Antônio Junqueira, um grupo de invasores massacrou com metralhadoras os índios cinta largas que viviam às margens do rio Juruena, no nororeste do Estado. Conhecida como o Massacre do Paralelo Onze, a matança foi relatada por um dos participantes, Atayde dos Santos. Que, horrorizado, contou como os cabeças da ação, Chico Luz, Manoel Manoel Rodrigues e Ramiro, amarraram uma índia pelos pés e a cortaram ao meio com um facão na frente de seu filho pequeno – executado com um tiro na cabeça após ver a mãe morrer.

No mesmo ano, um sertanista do Serviço de Proteção ao Índio, Frederic Tolksdorff, denunciou em carta para o colega do SPI João Américo Pirret que seringueiros estavam dando farinha envenenada com arsênico aos índios Tapayuna, os beiços-de pau. No mesmo ano, um telegrama da antropóloga e ex-diretora do Museu Nacional Heloisa Alberto Torres denunciou desesperadamente que aviões estavam jogando bombas nas aldeias dos cinta-larga, na mesma região. A fúria dos invasores era justificada pela riqueza de madeiras, como o mogno, e pela existência da maior jazida de diamantes do mundo na região.

Em 1969, com a repercussão internacional negativa da matança de índios na Amazônia, e após o reconhecimento em seu Código Penal de que existe, sim, o crime de genocídio, o governo brasileiro aceitou o chamado “Jogo da Verdade”. E classificou todos esses crimes acima citados como formas de genocídio. Mas e agora? Por quanto tempo a situação dos Xavantes em Marãiwatsede vai continuar a ser classificada como uma mera disputa por terra? Quantas Jardeus precisam morrer?

Para quem deseja conhecer a realidade da região é bom assistir o Vale dos Esquecidos.

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Como São Paulo virou a cidade dos carros

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São Paulo está para ganhar um novo anel viário, e consequentemente mais espaço para sua frota estadual de 21 milhões de veículos, uma das maiores do mundo. No início do mês a concessionária SPMar, do Grupo Bertin, reafirmou que vai … Continuar lendo

Assentamentos, hidrelétricas e aço, a força motriz da violência na Amazônia

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Bancada Ruralista vai ser a primeira beneficiada caso 164 vire Lei

Ontem, ao assistir a votação do Código Florestal, transmitida pela TV, e ver os deputados da Bancada Ruralista gritando, trocando insultos e deliberando o velho discurso de: “lutar pelo direito do povo”, “defender as minorias do campo”, “ajudar na produção de … Continuar lendo

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SP e RJ são modelos ambientais para o mundo?

As duas cidades teriam as menores taxas per capita  de emissões dos gases que provocam o aquecimento global. A afirmação foi feita em uma pesquisa lançada essa semana pelo Instituto Internacional de Meio Ambiente e Desenvolvimento (IIE a sigla em inglês). O … Continuar lendo

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As crianças vão ser as grandes vítimas das mudanças climáticas

O alerta foi feito por uma pesquisa britância e é direcionado principalmente para países em desenvolvimento. Essas nações, entre elas o Brasil, devem sofrer uma intensificação de problemas como a desnutrição e mortalidade infantil. O estudo foi publicado pela organização não governamental britânica Instituto … Continuar lendo

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“Recebi 50 reais para matar irmã Dorothy”

Essa é apenas uma das muitas revelações feitas no documentário Mataram irmã Dorothy, do diretor americano Daniel Junge. A afirmação é de Rayfran das Neves, que com seis tiros executou a missionária americana de 73 anos. O filme é um questionamento … Continuar lendo

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São Paulo é o principal responsável pelo desmatamento da Amazônia

Estudo mostra como o consumo no estado influência a destruição da floresta As organizações não governamentais Papel Social e Repórter Brasil divulgaram nesta terça (14) um estudo sobre como o mercado consumidor de São Paulo influência no desmatamento ilegal da Amazônia. Com … Continuar lendo

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“Ninguém vai conseguir andar descalço no Xingu”

O alerta foi feito por Winti Kîsedje. Ele foi o escolhido para contar aos índios porque os dias estão cada vez mais quentes. Winti nasceu no Parque do Xingu, e quando era adolescente começou a ser preparado para virar um … Continuar lendo

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Sting e Raoni se encontram no Brasil, 20 anos depois, contra Belo Monte

Sting recebeu a imprensa para divulgar o seu reencontro com o líder indígena Raoni Kayapó. O cantor inglês e ambientalista falou à imprensa neste domingo (22), em São Paulo, para reforçar o seu apoio ao movimento indígena que questiona a … Continuar lendo