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Um sonho para a Amazônia

Uma das lembranças mais impressionantes da minha infância foi de um tanque amarelo emergindo das águas negras do rio Teles Pires, no Norte do Mato Grosso. Não entendi bem o que era, mas fiquei boquiaberta com o grupo de “gringos” que saiu daquele estranho veículo/barco, com máquinas fotográficas e filmadoras. Anos depois, vendo televisão, entendi que aquelas pessoas faziam parte da equipe do documentarista francês, Jacques-Yves Cousteau. Na época, década de oitenta, eles estavam trabalhando na re-filmagem do primeiro grande documentário sobre a Amazônia. As imagens captadas por Cousteau correram o mundo e serviram como um forte apelo em pról da conservação da floresta. Hoje, parte do que eles registraram não existe mais. Já destruímos 17,5% da região.

O caminho para Alta Floresta, onde encontrei a equipe francesa, era repleto de castanheiras e mognos. As copas das árvores chegavam a formar túneis verdes por onde a estrada passava. A melhor parte da viagem eram os animais. Antas, porcos do mato, jaguatiricas e araras podiam ser vistos com freqüência. A lama e a falta de asfalto complicavam o caminho, mas a beleza da paisagem compensava o sacrifício.

Vinte e cinco anos depois, Mato Grosso é o maior produtor de soja e gado do país. A floresta foi substituída pelas cidades . No caminho, as árvores desapareceram para dar lugar aos campos de soja, milho e a um horizonte infinito de pastos. Foi o preço pago pelo sonhado progresso. Mas, ao contrário do ideal de riqueza, pouca coisa mudou na vida de grande parte dos mato-grossenses. O Estado tem um dos IDHs (Índice de Desenvolvimento Humano) mais baixos do país. Empurrados do campo para a periferia das cidades, a população acaba se limitando a viver do tráfico de drogas, de minérios ou da madeira ilegal. Uma realidade cruel, e que muitos se negam a debater. A violência é um capítulo a parte. Quatra das dez cidades mais perigosas do país estão no Norte do Mato Grosso.

Há dois meses, voltei a percorrer as estradas da minha infância. Foram 1.300 quilômetros até a divisa com Rondônia. No caminho, nada de florestas e animais. E pior, muitos campos abandonados que poderiam ser recuperados para as lavouras. Ainda existem madeireiras. Mas a maioria trabalha devorando todo o verde até o limite. Poderia ser diferente, ou melhor, pode ser diferente.

Ainda há 80% de Amazônia para preservar. Um território de 3,5 milhões de quilômetros quadrados que abriga lugares fantásticos como: as cachoeiras de Salto Augusto (Mato Grosso), o arquipélago de Anavilhanas (Amazonas), o delta de Porto de Moz (Pará) e as corredeiras de Teotônio (Rondônia). Nossa floresta é um dos poucos locais do planeta onde existe a chance de surgir um desenvolvimento menos predatório. Se conseguirmos criar uma nova lógica de crescimento na Amazônia, teremos dado um passo inédito na história. A idéia de um pacto nacional em prol da floresta pode ser um passo para essa mudança. Se todos concordarem em sair da imobilidade, pode ser que daqui há dez anos, documentários como o de Cousteau possam ser refeitos. Desta vez, para mostrar que a biodiversidade da floresta continua tão bela e preservada, quanto em 1985. Para realizar esse sonho basta rompermos com a idéia atrasada de que não existe outros caminhos para a região.

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