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“Ninguém vai conseguir andar descalço no Xingu”

O alerta foi feito por Winti Kîsedje. Ele foi o escolhido para contar aos índios porque os dias estão cada vez mais quentes. Winti nasceu no Parque do Xingu, e quando era adolescente começou a ser preparado para virar um representante político. Isso significa que sua missão é aprender as coisas “de branco” para voltar e repassar esse conhecimento para os índios que vivem nas aldeias e muitas vezes não falam português. Para isso, Winti estudou, viaja muito e participa de seminários. Aos 35 anos, ele é presidente de uma associação indígena, e virou uma espécie de mensageiro de dois mundos.

Winti não usa adornos ou artesanatos indígenas. Ele veste calça jeans, uma camisa social e fala bem português. Seu semblante está pesado e ele parece apreensivo. O Kîsedje acaba de receber um novo conhecimento. Essa semana, ele participou de um fórum sobre mudanças climáticas organizado pelos Institutos Centro de Vida (ICV) e Sócioambiental (ISA) na capital mato-grossense. Com ele estava Mairawê, um pajé kîsedje que não fala português (sentado com cocar e microfone na mão na foto). Winti era o intérprete. Em uma entrevista a Época, o índio revelou como vai ser seu retorno ao Xingu. Lá ele vai explicar aos índios que o clima do planeta está mudando. E pior, que a culpa desse fenômeno é do estilo de vida do mundo civilizado.

Época – O que os índios do Xingu sabem sobre mudanças climáticas?
Winti – Nós já tínhamos ouvido falar sobre aquecimento global na televisão e de alguns parceiros que visitam nosso território. Mas é a primeira vez que escuto sobre isso diretamente de cientistas. Os índios já estão percebendo que os ciclos de colheita estão diferentes. Os povos do Xingu já sofrem com a mudança nas estações. A gente sabe que tem algo de errado com o clima.

Época – Como vocês perceberam essa mudança?
Winti – Meu povo ainda vive do que pesca e planta. A gente sempre faz a roça de acordo com os sinais da natureza. A hora de plantar é quando o murici (uma árvore típica do cerrado) floresce. A gente faz a roça e espera a chuva. A cigarra canta e então chove. Hoje, não chove mais quando a cigarra canta. A gente fica esperando e não sabe mais quando plantar. As estrelas brilham no céu, mas a chuva não cai. As frutas também estão nascendo em épocas diferentes. Umas que só dão no verão já amadureceram em setembro. A terra está muito quente também. Na aldeia todo mundo podia andar descalço. Hoje, nem nos rituais podemos ficar descalço, porque dá bolha no pé quando dançamos. E esse sol? Não era tão quente. O homem cortou muito, destruiu todas as árvores e você vê, precisamos de árvore para suportar o calor. Tudo que está acontecendo é a comprovação do que os pajés já vinham falando.

Época – O que os pajés falam sobre a mudança no clima?
Winti – Eles escutam sobre isso dos espíritos. Eles não entendem porque o homem branco cortou tanto. Envolta do Xingu, em 1994, era tudo mato bonito, com árvore. Hoje, parece mais um deserto. Para nós índios, às árvores tem alma e vida, como um ser humano. Vocês não acreditam, mas para nós tudo tem vida. Os pajés conversam com esses seres e nos contam o que eles dizem. Para derrubar uma árvore precisa ter muito cuidado, muito respeito, pois esses seres ficam bravos quando matamos os parentes deles. Por isso quando branco derruba muito, pode acontecer alguma coisa ruim para ele. Os espíritos da natureza podem enfeitiçar. Os pajés já sabiam do aquecimento global. Os espíritos contaram para eles, que essa coisa de furacão, terra tremendo e onda gigante é por causa da destruição que o homem fez na natureza.

Época – As catástrofes naturais são uma vingança por causa do desmatamento?
Winti –
 Não é só desmatamento. Tem muita fumaça lançada no ar. Muita indústria e muito carro. Toda cidade tem um monte de carro, até as pequenas. Tenho medo da fúria dos espíritos. O homem branco prejudica seus próprios parentes e não parece ligar para isso. Minha esperança é que essas discussões sobre aquecimento global façam as pessoas pensarem, pois os espíritos estão bravos com os brancos.

Época – Os índios podem ajudar a combater o aquecimento global?
Winti – Nós cuidamos das florestas de nossas terras. Quando você anda de carro até uma aldeia é tudo seco. O ar é seco e quente. A gente só se sente melhor quando entra em território indígena, daí que percebemos o quanto é boa a umidade que vem das árvores. Nós estamos fazendo nossa parte, mas precisamos de apoio. Tem essa história de crédito de carbono, mas não entendi direito o que é.

Época – Você sabe o que é carbono?
Winti – Não. Como disse os amigos índios que vieram com a gente para o seminário. Carbono é fumaça? É poeira? O que é esse tal de carbono? O pesquisador do Inpa (Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia) falou que era algo bom, que dava a vida ao mundo, mas que mal usado poderia prejudicar o planeta. Preciso estudar mais, ainda é uma discussão que quero entender melhor.

Época – O que vai dizer para os outros índios quando voltar à aldeia?
Winti –
 Vou chamar todo mundo no centro da aldeia para reunião. São 420 kîsedjes que vivem em nossa aldeia. Eu vou ter que explicar para eles tudo que ouvi aqui. Vou falar que os pajés têm razão, o mundo vai ficar mais quente.

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