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“Recebi 50 reais para matar irmã Dorothy”

Essa é apenas uma das muitas revelações feitas no documentário Mataram irmã Dorothy, do diretor americano Daniel Junge. A afirmação é de Rayfran das Neves, que com seis tiros executou a missionária americana de 73 anos. O filme é um questionamento sobre as razões do assassinato de Dorothy, que dedicou a vida para implantar na Amazônia um modelo de assentamento rural no qual a floresta permanece de pé, o Projeto de Desenvolvimento Sustentável (PDS).

O diretor acompanhou a história por três anos, desde as primeiras semanas do crime, e conseguiu falas e confissões inéditas dos envolvidos. O comportamento dos advogados de defesa dos assassinos e a entrevista com um agente americano da CIA dão um tom de ficção à trama. Mas todos os personagens são reais e o único ator contratado é Wagner Moura, que faz a narração. Junge também mostra as várias versões sobre a vida de Dorothy, inclusive a tese de que a missionária seria uma agente americana contratada para fazer a ocupação estrangeira da Amazônia.

Uma das seqüências mais perturbadoras é quando a câmera filma a expressão de Dorothy depois de baleada e abandonada na floresta. A cena deve chocar muitas pessoas quando o filme for exibido nos cinemas a partir de fevereiro de 2009. Um dos protagonistas do documentário, o procurador-Geral da República Felício Pontes, fala a Época sobre o que há por trás da morte da missionária.

ÉPOCA – Por que mataram irmã Dorothy?
Felício Pontes – Há três anos tento responder a essa pergunta. A conclusão a que cheguei foi que fizeram isso porque ela representava um outro modelo de ocupação da Amazônia. A área ocupada pelo projeto PDS, que Dorothy tentou implantar, não representava mais de 5% do município de Anapu. Mas se ela tivesse sucesso, seria a prova de que um novo modelo de ocupação é possível. E que essa proposta meramente exploratória do gado e da soja pode dar lugar a uma outra iniciativa. O caso de Dorothy foi similar ao de Chico Mendes. Não foi a terra em questão, mas sim a proposta de mudança.

ÉPOCA – O senhor está dizendo que existe uma disputa pela ocupação da Amazônia?
Felício – Sim, existe um confronto entre dois modelos. Um é o modelo predatório, o outro é o sustentável. O predatório é concentrador de renda e acontece com a extração de madeira, a mineração e a pecuária extensiva. E o outro, que Dorothy defendia, usa os produtos da floresta e dá acesso aos recursos naturais a toda população local . A grande questão é que foi o próprio governo que criou essa disputa quando decidiu, na década de 60, que o melhor para a Amazônia seria a exploração e a derrubada da floresta. E pior, investiu dinheiro para isso.

ÉPOCA – O governo deu dinheiro para derrubar a floresta?
Felício – Foram três grandes forças de financiamento: o Banco da Amazônia, o Banco do Brasil e a pior de todas que foi a Sudam (extinta Superintendência de Desenvolvimento da Amazônia criada pela ditadura militar). Eu fiz parte de um grupo de procuradores da república que analisou as fraudes da Sudam e descobrimos que 50% do dinheiro empregado era desviado para fraudes. Isso obrigou o presidente da República a extinguir a Sudam. Só para ter uma medida do dinheiro desviado, os projetos mais baratos eram de 10 milhões de reais e 99% eram para tirar madeira e explorar a pecuária. E como grande parte da Amazônia é terra sem titulação, isso também criou um mecanismo de financiamento indireto para o roubo de terras públicas.

ÉPOCA – Então o dinheiro do governo federal financiou a grilagem de terras na região?
Felício – Sim, pois bastava ter dinheiro – obtido com os empréstimos dos Bancos e da Sudam – para corromper os cartórios e ter títulos de terra. Marabá é um caso mais pitoresco disso. O governo queria ocupar essa área do Sul do Pará de qualquer forma e não se importou em como isso foi feito.

ÉPOCA – Por que o governo queria ocupar Marabá e o Sul do Pará?
Felício – 
É meio impressionante. O governo queria ocupar aquela região por causa da guerrilha do Araguaia. Naquele momento, no início da década de 70, a questão não era mineração. A Vale e as mineradoras estrangeiras não precisavam de financiamento. O que o governo militar queria era simplesmente ocupar para dissolver a região da guerrilha do Araguaia. E isso foi feito sem nenhum critério, sem mediação de conflitos. Hoje, o Sul do Pará é o campeão brasileiro em trabalho escravo e o campeão de morte de trabalhadores rurais.

ÉPOCA – Essa ocupação irregular também não teria uma raiz no modelo de desenvolvimento proposto para a Amazônia? Afinal, até hoje o governo federal continua apoiando o modelo de pecuária e soja na região.
Felício –
 Sim, e essa é uma das causas que levou a ministra Maria Silva a sair do governo. É normal que, dentro de um governo, existam suas contradições, mas precisamos de uma decisão. Se esse modelo do Centro-Oeste, baseado na pecuária e na soja, for implantado na Amazônia por uma decisão de governo, nós vamos deixar que apenas quem tem dinheiro vença e não vai ter como combater o desmatamento.

ÉPOCA – Mas como acreditar que o modelo de extrativismo – defendido por Dorothy – pode dar certo na Amazônia? Na própria reserva Chico Mendes, no Acre, que foi a primeira de todas essas propostas, as pessoas estão abandonando a floresta para criar bois. Como acreditar no modelo de exploração da floresta se na prática não existem resultados positivos?Felício – Eu queria apenas metade do que foi desviado pela Sudam para provar o contrário. Com investimento, eu tenho certeza de que a floresta em pé e o extrativismo podem dar certo. No caso do modelo de desenvolvimento por meio do boi e da soja, você teve um investimento muito grande. O projeto menor da Sudam era de 10 milhões. Com isso, você tem máquina suficiente para derrubar uma floresta em um mês e plantar o que quiser. Assim qualquer modelo dá certo. Agora, na parte do extrativismo e desenvolvimento sustentável, não há investimentos. E estamos trabalhando com produtos que possuem um valor muito baixo se são extraídos in natura. É necessário processar para o valor crescer. A castanha, por exemplo, tirada in natura, chega a centavos. Se você tem o beneficiamento, o valor de venda sobe para dezenas de dólares. Mas, para isso, o governo também precisa acreditar nesse modelo e investir nele. Hoje, o incentivo de uma reserva extrativista é de 7 mil reais por família, mais 2.500 mil reais para a pessoa comprar utensílios agrícolas. Isso dá para fazer muito pouco. O crédito para essas iniciativas é ínfimo. E essa era uma das sacadas da Dorothy, ela sabia que precisava desse investimento e que isso poderia mudar toda a realidade local. É por isso que incomodou tanto. Foi essa a razão da morte dela.

ÉPOCA – A morte da Dorothy fez a população acreditar menos no PDS?
Felício – A morte de uma liderança é algo brutal. Todo mundo recua quando vê um líder estendido no chão, desestabiliza tudo. A saída dos opositores do modelo sustentável foi essa, desestabilizar os movimentos por meio das mortes. Essas pessoas sabem que o modelo que elas estão propondo não é algo correto e que segura um olhar da justiça, pois vem do desvio de dinheiro público e do roubo de terras. Logo, o único caminho dessas pessoas é a violência.

ÉPOCA – O filme mostra uma acusação de que Dorothy teria uma espécie de milícia armada na região e que até teria mandato matar pessoas. Isso é verdade?
Felício – Não, mas é bom explicar isso. Essa acusação foi feita pela polícia civil da região, que é comprometida com os fazendeiros locais e sem nenhum tipo de provas. Eu gostaria muito que a promotora que aceitou essa acusação aparecesse um dia e desse uma explicação sobre o assunto, pois ela simplesmente desapareceu. A situação de fraude era tão óbvia que a juíza que julgou Dorothy sobre a acusação chegou a pedir proteção policial, pois percebeu que a vida da missionária corria risco.

ÉPOCA – O senhor acha que a morte de Dorothy vai ficar impune?
Félicio –
 Sim, corremos um grande risco de isso acontecer. O assunto está morrendo na mídia e o tempo sempre favorece a defesa dos assassinos, pois os depoimentos ficam mais fracos. Existe uma probabilidade de o crime ficar impune e os mandantes continuarem livres. E isso vai ser horrível. Meu grande medo é que essa impunidade estimule novas mortes, pois, se não fizeram justiça com a morte de uma missionária de 73 anos, quando vai haver justiça? Quem mais precisa morrer?

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