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Nós somos os culpados pelas enchentes

Destruímos o rio Tietê e agora culpamos a natureza? Parece até brincadeira, porém muitos acreditam que as cheias que assolam São Paulo são culpa da natureza. “É um problema que, em grande medida, está na natureza. Uma calamidade como a de ontem (terça) nós temos de rezar para que não se repita”, disse José Serra, governador de São Paulo, no dia seguinte da população enfrentar mortes, engarrafamentos e muitos prejuízos causado pelas chuvas. Serra tem razão quando afirma que os 62,6 mm de água que caíram sobre a cidade são resultado dos ciclos naturais. Porém, o governador errou ao dizer que a cidade alagou por causa da natureza. As enxurradas, os deslizamentos e as inundações têm um só culpado: o homem.

O desprezo pelo rio Tietê é a principal fonte dessa culpa. Dragar, retificar o seu curso, desmatar e asfaltar as suas margens com “impermeabilização” para automóveis trafegarem em alta velocidade são apenas alguns dos erros que a população aceitou que fossem cometidos contra o rio Tietê. É desagradável admitir, mas votamos em políticos que fizeram essas escolhas, ou pior, simplesmente aceitamos que centenas de obras e muitas indústrias transformassem o Tietê em esgoto puro. E o pior, um processo cujo início não está muito distante de nossas memórias.

Meu pai aprendeu a nadar no rio Tietê, às margens de um dos clubes de regatas da região. Em fotos de família ele aparece sorridente pulando emsuas águas, quando o rio já começava a dar os primeiros sinais de poluição, mas ainda era usado para o lazer dos paulistanos. As fotos são uma denúncia clara de como alteramos a região, hoje praticamente irreconhecível. As margens já eram desmatadas, porém o local tinha uma bucólica paisagem. Algumas manchas de vegetação e palmeiras que cercavam a Ponte Grande,  davam ares parisienses à região, cenário perfeito para muitos piqueniques em família. Foi nessa bela paisagem que meu avô pediu minha avó em casamento, em uma São Paulo remota de 1924. Ainda guardo a foto do casal sorridente, passeando na ponte do rio Tietê. Nessa época, as suas magens eram particamente inabitadas devido às cheias que faziam formavam um grande lago durante o verão. Algumas pessoas teimavam em construir moradias nessas áreas, mas eram expulsas pelas águas.

Dez anos depois, o governo decidiu tentar resolver as cheias do rio. Ao invés de remover os bairros que começaram a surgir em áreas de várzea, a opção foi retificar o Tietê. Ironicamente, desde essa época acreditava-se que as cheias eram culpa da natureza, e não das construções humanas feitas nas áreas de alagamento.

Em vez de preservamos o rio Tietê como uma espécie de paraíso encravado na cidade de São Paulo, a escolha foi deixar que indústrias usassem as suas águas sem comprometimento ambiental, retificar as suas curvas e destruir a sua paisagem com asfalto. Será que valeu a pena? Quais foram os reais benefícios que os paulistanos ganharam ao destruir o rio? A resposta parece estar nos estragos que as chuvas causam à São Paulo. Os carros cercados por água seguem como um protesto silencioso do Tietê.

O rio parece debochar da população. Mesmo mal-cheiroso e destituído de suas curvas, lagoas e beleza, o Tietê mostra que a sua vontade é maior do que o nosso asfalto. E ninguém vai conseguir controlar as suas cheias. A solução sugerida por muitos urbanistas é drástica: destruir as marginais, criar parques em volta do rio e deixá-lo à vontade para seguir com seus ciclos de cheia. A alternativa para os transporte poderia ser o aumento da rede de trens, metros, ciclovias e até hidrovias.

Mas não é essa a ideia do governo. A opção de prefeitos e governadores é seguir com velhos erros. Parece piada, mas além culparmos a natureza, vamos novamente retificar o rio Tietê. A idéia agora é criar uma superimpermeabilização para uma “terceira” Marginal em volta do rio. A decisão do Ministério Público de embargar a obra, no início da semana, surgiu como um sopro de esperança. Será que vamos parar de errar com o rio Tietê e repensar a sua urbanização? Seria uma atitude muito mais eficaz do que a mera oração sugerida pelo governador para aplacar a ira da natureza.

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