Galeria

Por que amar a Amazônia?

“Foi chato, tedioso, apenas horas de barco em rios que não acabavam nunca e um horizonte fixo as mesmas árvores verdes e monótonas. As trilhas eram repletas de espinheiros, formigas e vespas, e pior, quase não vimos bichos. Apenas um porco-do-mato. Para falar a verdade, achei a minha primeira viagem para a Amazônia decepcionante.” Foi o relato de um colega jornalista, de 22 anos, que acompanhou a sua primeira expedição na Amazônia. Com a mochila repleta de repelentes contra insetos, ele sonhava encontrar a biodiversidade da região.

Um sonho confirmado por informações científicas que descrevem  a existência de mais mil tipos de aves diferentes e 300 espécies de mamíferos já catalogados na região. Fatos que somados a tantas matérias pujantes que descrevem uma selva misteriosa, colorida, repleta de animais e descobertas magníficas trás tanta ansiedade aos que viagem pela primeira vez à região.

Porém, depois de dez dias de trilhas, umas quarentas horas no baque-baque de uma voadeira (aquele barco estreito, pouco seguro, de alumínio e muito eficiente para se chegar logo de uma ponto a outra de um rio com corredeiras) e suportando um calor de quarenta graus,  o único animal realmente “visto” pelo repórter foi o tal queixada, uma espécie de porco-do-mato. Os outros animais registrados pelos pesquisadores da expedição foram vultos de macacos que precisavam ser seguidos com correrias às cegas entre cipós e buracos, e alguns pequenos felinos fotografados a  noite com câmara trap, que dispara automaticamente e perfeita para flagrar animais ariscos como onças e lobos.

Indignada com os relatos do colega, tentei argumentar sobre a sensação plena de ser abraçado pelas copas da verdadeira Floresta Ombrófila Densa – aquela onde as copas das árvores se encontram – e sobre o canto dos pássaros que nos envolvem na sombra esverdeada das árvores, como o corriqueiro assovio do capitão-do-mato. Mas,  nada do que eu falava parecia mudar a terrível impressão que meu colega teve da região. As gigantes picadas de mutucas e piuns em suas mãos, as feridas e inchaços nos pés também não ajudaram muito nos meus argumentos. “Mas você não viu nem uma revoada de borboletas amarelas nas margens dos rios? Ou comeu delicioso peixe fresco e pescado na hora?”

– Eu odeio peixe! Foi a sua resposta seca.

Após um grande silêncio, comecei a ouvir mais queixas e elucubrações de como os escritores Alberto Rangel (1871-1945) e Euclides da Cunha (1866-1909) estavam certos sobre a Amazônia ser um “Inferno verde”, título aliás do livro mais célebre de Rangel. E o jovem repórter continuou….”O paraíso amazônico não existe, um mito, um eldorado de vida que somente os que tem “muita sorte encontram”.

Existem muitas Amazônias no Brasil. Especialistas em ecologia da paisagem classificam que a nossa porção de floresta tropical com seus 4.196.943,00  quilômetros quadrados, dos quais restam 82%, esteja dividida em cinco ou seis tipos de paisagens diferentes. No meu olhar leigo, e do pouco que vi, e tive oportunidade de conhecer, percebi a nítida diferença dos três tipos de rios que cortam a floresta. Os rios de águas negras, antigos e tingidos pelas folhas tal como o chá, nessa categoria encontram-se o famoso rio Negro o e Purus. Também há os rios marrons e com corredeiras fortes, como o Madeira e o Solimões, e os rios de águas transparentes, como o Xingu e o Tapajós. Estes últimos, na minha opinião os mais lindos. Aliás, concordo com o jornal inglês The Guardian que elegeu a praia de Alter do Chão, em Santarém, no Pará como a mais bela do país. Não há local mais lindo do que aquelas pequenas dunas de areia brancas rodeada pelas corredeiras do rio Tapajós, com suas águas  transparentes de verde esmeralda inacreditável.

Talvez eu seja muito romântica. Ou pior, sempre que vá a Amazônia desvie meu olhar para cores e formas, e por isso, eu acabe não me importando muito com as picadas de insetos, nem com o inchaço dos meus pés. O fato é que hoje, cercada por uma São Paulo, fria, cinzenta e barulhenta, eu daria tudo para estar exatamente no coração da minha amada Amazônia, ouvindo os gritos desesperados dos macacos bugios, o canto das cigarras e todas as mazelas e belezas que embalam nosso privilegiado bioma.

E para quem duvida da beleza da Amazônia, ficam aqui minhas percepções pessoais de suas belezas captadas em trilhas onde poucos passaram no Pará.


Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s